Palavra do Ano: o que a linguagem revela sobre o nosso tempo e as tendências de comportamento

A imagem traz uma nuvem de palavras para representar a palavra do ano 2026. Em destaque estão as palavras conquista, amos, mudança, sucesso, fé e felicidade.

Você já ouviu falar da “Palavra do Ano”?

Assim como a Cor do Ano, criada pela Pantone em 1999 para representar o ano 2000, a escolha de uma palavra para simbolizar o espírito de determinado período ganhou força na mesma época. Coincidência ou não, estávamos diante da chegada de um novo milênio, um momento marcado por expectativas, curiosidades e questionamentos sobre o futuro.

A Oxford University Press começou a eleger sua Palavra do Ano em 2004. Desde então, a iniciativa se tornou uma espécie de fotografia de cada época: uma palavra ou expressão capaz de capturar comportamentos, acontecimentos, preocupações e mudanças culturais.

Em Portugal, a iniciativa é realizada pela Porto Editora desde 2009. O objetivo é destacar palavras que marcaram o contexto cultural e social e acompanhar a evolução da língua portuguesa. A escolha considera, entre outros fatores, a frequência e a distribuição das palavras nos meios de comunicação, nas redes sociais e nas consultas aos dicionários.

A Palavra do Ano e a pesquisa de tendências

E isso tem tudo a ver com pesquisa de tendências. Porque a linguagem também é um reflexo do Zeitgeist, o espírito do tempo. Assim como a moda, a arquitetura, o design, a música e o comportamento, as palavras que ganham força revelam aquilo que está ocupando nossa atenção.

As palavras contam a história. Ao longo dos anos, algumas escolhas são especialmente interessantes para observar as transformações da sociedade.

Em 2005, a Oxford escolheu podcast, acompanhando o crescimento de uma nova forma de consumir conteúdo em áudio. Em 2009, unfriend traduzia uma possibilidade criada pelas redes sociais: romper uma amizade digital com apenas um clique. Em 2013, selfie explodiu no uso e passou a representar uma nova relação com a autoimagem. Em 2015, a Oxford escolheu pela primeira vez um emoji, 😂, como sua Palavra do Ano.

Perceba a sequência: a tecnologia não apenas criou novas ferramentas. Ela criou novos comportamentos e, consequentemente, novas palavras para nomeá-los.

Depois, o foco começou a mudar. Em 2016, a Oxford escolheu post-truth, refletindo um cenário de desinformação e de crescente dificuldade em distinguir fatos, crenças e narrativas. Em 2019, climate emergency mostrou como a emergência climática havia ganhado espaço no debate público.

O que as Palavras do Ano revelam sobre o comportamento

E a pandemia acelerou ainda mais essa transformação. Em 2022, a Oxford escolheu goblin mode, uma expressão que capturava o desejo de abandonar determinadas expectativas sociais e simplesmente viver de maneira mais confortável e sem tantas cobranças depois de anos de pandemia.

No mesmo ano, a Merriam-Webster escolheu gaslighting, palavra que teve um aumento de 1.740% nas buscas em seu site e refletia um período marcado por desinformação, desconfiança e manipulação.

Em 2024, a Oxford escolheu brain rot, “podridão cerebral”, para representar a preocupação crescente com o consumo excessivo de conteúdos online de baixa qualidade e seus possíveis efeitos sobre nossa atenção e capacidade crítica. Mais de 37 mil pessoas participaram da votação. A Merriam-Webster escolheu polarization, refletindo a crescente divisão política e social daquele período.

E chegamos a 2025. A Collins escolheu vibe coding, termo que descreve o uso de inteligência artificial, a partir de comandos em linguagem natural, para produzir código. A Merriam-Webster escolheu slop, palavra usada para descrever conteúdos de baixa qualidade produzidos em grande volume, especialmente no contexto digital e de IA.

E a escolha da Dictionary.com foi ainda mais curiosa: 67, ou “six-seven”, uma expressão viral e aparentemente sem significado definido que se espalhou pela Gen Alpha e pelas redes sociais. A própria Dictionary.com relaciona o fenômeno à cultura do brain rot e ao excesso de conteúdo produzido e consumido online.

O que a Palavra do Ano revela sobre o nosso tempo?

E o que tudo isso revela?

Quando colocamos essas palavras lado a lado, conseguimos enxergar uma transformação interessante.

Primeiro, a tecnologia criou novas possibilidades:

podcast → selfie → emoji → redes sociais

Depois, começaram a aparecer palavras relacionadas às consequências desse novo mundo:

post-truth → gaslighting → polarization → brain rot

E, mais recentemente, surgem termos que tentam explicar nossa relação com a inteligência artificial e com o excesso de informação:

vibe coding → slop → 67

A linguagem acompanha as mudanças da sociedade. E existe algo ainda mais interessante: precisamos criar nomes para aquilo que ainda não sabíamos nomear.

Novos comportamentos, sentimentos, relações e fenômenos sociais precisam de palavras para serem compreendidos. E quando conseguimos nomear algo, conseguimos também enxergá-lo melhor, conversar sobre ele e, muitas vezes, questioná-lo.

Linguagem, cultura e pesquisa de tendências

Foi justamente sobre isso que pensei recentemente ao assistir à peça O Céu da Língua, com Gregório Duvivier.

A peça brinca com as palavras, seus significados e suas transformações e mostra também como uma mesma ideia pode ser expressa de maneiras completamente diferentes em diferentes países e culturas.

E isso é especialmente interessante para quem trabalha com tendências.

Tendências não são universais. Um mesmo comportamento pode surgir em diferentes lugares, mas assumir formas completamente distintas dependendo da cultura, da história, da economia e do contexto social de cada sociedade.

Por isso, pesquisar tendências não é apenas observar o que está acontecendo. É entender por que aquilo está acontecendo, onde está acontecendo e o que aquilo revela sobre as pessoas daquele lugar.

Qual será a Palavra do Ano de 2026?

E qual será a Palavra do Ano de 2026?

Até agora, ainda não foi anunciada pelas principais instituições. Mas, olhando para o que estamos vivendo, algumas ideias começam a aparecer.

Talvez estejamos falando cada vez mais sobre:

• equilíbrio entre tecnologia e humanidade;

• excesso e consciência;

• conexão e presença;

• inteligência artificial e criatividade humana;

• ou até mesmo o retorno de comportamentos e valores que pareciam ultrapassados.

Esses movimentos já aparecem em diferentes tendências de comportamento que estamos observando em 2026.

No fim das contas, a Palavra do Ano não é apenas uma escolha linguística. Ela funciona como uma espécie de cápsula do tempo: um retrato das nossas preocupações, desejos, medos, comportamentos e transformações.

E, para quem pesquisa tendências, observar as palavras é também uma forma de observar o Zeitgeist.

E você? Qual palavra escolheria para definir 2026 até agora?

“Antes de uma tendência virar comportamento, muitas vezes ela precisa virar palavra.”

Se você quer aprofundar esse olhar e acompanhar tendências de moda e comportamento de forma estratégica, conheça o The Trends Club.

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